“A cavalo dado não se olha os dente”: quando a política pública habitacional violenta o modo de morar camponês

Palavras-chave: política habitacional, moradia camponesa, violência simbólica

Resumo

Este artigo tem por objetivo discutir a violência simbólica presente no processo de execução do programa habitacional Minha Casa, Meu Maranhão, analisando o desenvolvimento do programa, verificando as diretrizes e sua aplicação, além das atitudes dos beneficiários após a materialização da referida violência encontrada na casa do programa. Considerando o modo de morar rural como intrínseco às suas condições gerais de vida, o texto analisa a concepção do programa habitacional criado a partir do Programa Nacional de Habitação Rural (PNHR), comprovadamente pouco eficaz na região Nordeste do país e distante da realidade social dos beneficiários. Com base em pesquisa de campo realizada entre 2015 e 2019 em Pequizeiro, povoado do município de Belágua, Maranhão, discute o processo de apropriação da nova moradia pelas famílias contempladas, analisando reformas identificadas na nova casa, assim como os diferentes usos dos ambientes, que se alteram de acordo com a necessidade de cada núcleo familiar. Com base no estudo das intervenções físicas pós-ocupação, conclui que o programa é incompatível com a realidade local, e a desconsideração e violência praticadas sobre o modo de vida camponês têm suas respostas nas intervenções na casa e em seu entorno que buscam restituir as condições necessárias à sua reprodução social.

Biografia do Autor

Amanda Marques Gomes, Universidade Estadual do Maranhão (UEMA)

Mestre em Desenvolvimento Socioespacial e Regional pela Universidade Estadual do Maranhão (UEMA). Graduada em Arquitetura e Urbanismo pela UEMA. Pesquisadora do Laboratório de Análise Territorial e Estudos Socioeconômicos (LATESE). Professora do curso de Engenharia Civil da UEMA, campus Bacabal.

Frederico Lago Burnett, Universidade Estadual do Maranhão (UEMA)

Doutor em Políticas Públicas pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Mestre em Desenvolvimento Urbano pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Graduado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de Buenos Aires. Professor adjunto 4 do Departamento de Arquitetura e Urbanismo e do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Socioespacial e Regional, ambos da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), com pesquisas em história urbana, planejamento e gestão urbanos, desenvolvimento regional, moradia popular urbana e rural.

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Publicado
2022-04-28
Como Citar
Gomes, A. M., & Burnett, F. L. (2022). “A cavalo dado não se olha os dente”: quando a política pública habitacional violenta o modo de morar camponês. Interações (Campo Grande), 23(1), 165-181. https://doi.org/10.20435/inter.v23i1.3167